segunda-feira, 24 de março de 2008

Gota Transbordante



Compartilhado com o amigo GeorgeLiberdade: ou a tenho ou sou medroso; ou sou livre ou deveria ser livre. Constatei que por muitas circunstâncias não sou livre. Seja porque falo por minha não-linguagem, seja pelas minhas tantas experiências, seja pelos tantos afetos que adquiri, tenho ou adquiro, ou seja, pela minha própria condição existencial: de fragilidade, de contingência, do não-saber, enfim, da minha finitude a das minhas impossibilidades. Não sou um ser ex-plicado. Todas as im-plicações que circunstancialisam minha vida me tornam cada vez mais não-livre. E cada experiência nova que faço revela-me, por não saber de suas emergências, como ser implicante e implicador, e, por isso, um ser desejoso de liberdade. Não sei ao certo se essa liberdade que desejo já existiu, se ela faz parte de meu destino ou se simplesmente a desejo como a contradição da minha existência. Nem sei se há uma possibilidade de liberdade. Nem sei mesmo no que quero ser livre, e nem sei se esse desejo de ser livre não se confunde com a vontade de fazer alguma coisa proibida. Não sei ao certo se liberdade é fazer o que quero, ou se liberdade é ser o quero fazer. Ser o fazer é grandioso na existência de quem vive de fato. Ser o que se faz é ao mesmo tempo fazer-se. Não quero dizer que sou um ser em construção na medida que faço-me, pois não tenho pretensão de ser um acabado, porém, revelo-me como ser que, na sua contingência, sabe-se inacabado e sempre ativo, portanto, efetivando-se atualmente. Assim, acho que ser livre é, sobretudo, um realizar-se como ser em plena efetivação, sempre diferente, por isso sempre atual. Mas a vida social, ou seja, o “mal-estar”, exige de mim uma atitude, assim como viver e ser livre são atitudes. Mas para cada atitude consciente faz-se necessário aquilo que Sócrates chamara de virtude: a coragem. No “mal-estar” é sempre necessário se ter coragem. Ela é a única possibilidade para o desconforto de escolher viver no bem-estar. Mas entre o desconforto do “mal-estar” para o desconforto do bem-estar parece melhor este. Ele é meu, aliás, ele sou eu, pois no desconforto de não saber quem sou sinto-me feliz por não mais viver quem não sou. No “mal-estar” eu não sou, e se no bem-estar também não sou, mas sei que neste não sou. E a questão não é do saber ou do não-saber, mas é que no saber tenho a plena possibilidade de ser o fazer-se. Preciso de uma gota de coragem! Preciso de uma gota de coragem para que eu possa transbordar, como um mar, de liberdade. Só me falta uma gota de liberdade para fazer-me nascentes e rios, mares e oceanos, fazendo-me mistério para mim mesmo; não quero ser sagrado, quero ser mistério. Quero que a esquina de meu olhar sempre se afirme nessa impossibilidade de me vê todo. Que meu todo não exista, pois seria muito infeliz se um dia eu me encontrasse acabado, pronto para qualquer dissecamento, saciado em todo efetivar-me. Que a infinitude da minha efetividade, da minha atividade, de minha liberdade seja sempre a realidade mutante da minha existência. Que caia a gota que me falta!
‎8‎ de ‎agosto‎ de ‎2003, ‏‎09:34:43
Josemar Silva

2 comentários:

Anônimo disse...

Parece que o tempo não passa e que ontem foi hoje e que o desejo de permanecer num respiro leve, livre e solto continua. A liberdade me aparece quando me percebo limitado no mundo e quando tudo e nada me tocam simultaneamente me deixando cheio de desejo e vislumbrante do que ainda não tenho. Sou livre porque não tenho nada e porque quero a vida e não a possuo!
Um abraço!

George Roberto
Serrinha-BA

Quele P. V. Marçal disse...

Liberdade...
As vezes, sinônimo de angústia...
Pois, quando a sentimos, é como o vento forte e ligeiro que sentimos passar pelo nosso corpo...