terça-feira, 25 de março de 2008

O papel do Valor e o valor do Papel

Todos nós acreditamos no valor. Uns acreditam que o valor tem sua historicidade, outros, porém, acreditam no valor como uma essencialidade necessária. Mas tanto uns quanto outros acreditam na existência e eficácia do valor para a ordem e coesão social. Trata-se de valor moral e material, um e outro estão intrínsecos entre si. Todos nós, assim, vemos claramente o papel que o valor exerce na vida individual e social.
É certo que cada indivíduo e grupo social acreditam em certos valores, ora dando ênfase em valores estritamente morais ora privilegiando o valor em termos materiais. Em cada ação individual ou social é visível a presença do valor, seja nas conversas coloquiais ou em grandes discursos. A todo o momento estamos julgando as coisas ou situações, e é claro que tudo isso, indireta ou diretamente, é direcionado por nossas tábuas de valores.
Vejamos quando nos encontramos na conversa com amigos ou outros. Dizemos o que julgamos certo ou errado, belo ou feio, verdadeiro ou mentiroso, dizemos ainda o que achamos caro ou baratos, e às vezes ditamos o preço do carro, da roupa, da comida, etc., até chegarmos ao momento onde uma certa tautologia é verificada quando empregamos o preço do próprio capital ao dizermos a cotação da moeda tal e tal.
O valor, portanto, está em todas as partes e como que definindo todas elas. Conseqüentemente, verifica-se que o valor tem sido nosso grande norte, e que com sua falta tudo se perde, nada parece ter sentido, tudo se apresenta descontrolado e os sentimentos de desespero ou angústia se fazem presentes em todos os indivíduos. O valor se tornou tão essencial que mesmo seus críticos não viveram ou não vivem sem um momento de valoração, de julgamento, pois mesmo suas críticas partem de outros critérios que, no final das contas, são também valores. O papel do valor é, sem dúvidas, oferecer, doar sentido à existência, seja esta a minha ou a nossa.
Parece-nos, então, que é longa e antiga a história do valor. Pois ele nasce, ao nosso ver, com o nascer da unidade entre dois indivíduos, quando, enfim, nasce o grupo social. E desde quando existe grupo social? Ao que nos parece isso é tão antigo que nem sabemos, não há data exata nem suposta, o que temos é uma outra história: a da vida social. Descortinar a história da vida social é labor infinito, onde nem sabemos por onde começar, no indivíduo ou no grupo.
Ao longo dessas histórias é possível verificar o quanto o valor diversificou sua forma de ser eficaz, mas também se verificou sua resistência quanto ao seu objetivo. Doar sentido à existência sempre foi seu efetivar-se, e suas formas foram e são as condições de possibilidade mais enraizadas e constitutivas de identidade que houve e que há. Assim, do papel do Valor é possível falar do valor do Papel.
Do mesmo modo, e mais concretamente, temos o papel. Não queremos aqui falar do papel enquanto função ou modo de exercício de algo ou de alguém – no caso aqui o valor. Queremos mesmo é falar do papel feito ou constituído da celulose. Sim, disto mesmo, da celulose, desta substância das células vegetais de onde é possível fabricar nosso tão necessário papel: papel de escrever, papel de jornal, papel para embrulhar, papel que é dinheiro, cédula.
É! Se falamos acima que em tudo o valor exerce seu feitiço, no papel ele também o faz. O papel de celulose tem seu valor. é claro que cada um expressa um valor, depende de suas funções. Devido à escrita, certos papéis têm seu valor; devido ao jornal, temos novos valores; dependendo do embrulho há um outro valor; porém se se trata de dinheiro, ah!, aí sim, o valor é mais expressivo. Mesmo que este papel de dinheiro seja sujo, feio, rasgado, riscado, mesmo assim seu valor não muda, ele, o valor, é tão fixo nesse caso que ele é capaz de transcender todos os aspectos reais do dinheiro feito de papel sujo, feio, rasgado e riscado.
Esse dinheiro feito de papel (...) compra o papel branco e limpo para a escrita, compra o jornal e compra o papel para embrulho. A virtualidade do valor é tão real que fez do papel nosso guia. Qualquer papel encontrado, comprado, doado, recebido ou mesmo fabricado que tenha simples figuras de animais, de números, de pessoas, letras, com a frase “Deus seja louvado”, podemos ter a certeza que esse papel é de maior valia. É ele, hoje, a grande e eficaz expressão do valor, do que vale e do que é válido.
Para que alguém seja gerado, seja alimentado, nasça, cresça e apareça o papel-dinheiro é indispensável. Nossa vida, toda ela, é marcada pela presença do papel-dinheiro. É mais fácil ser ausente de nossas vidas os nossos genitores, parentes outros, amigos, escola, Deus ou quaisquer outras coisas que se julguem necessárias, porém o papel-dinheiro não, ele é, para nós homens e mulheres modernos, nosso grande sentido, nosso grande objetivo, nosso grande valor.
Como nosso grande valor? Mas quem veio primeiro o valor ou o papel-dinheiro? Quem exerce poder sobre quem? Parece que tanto faz! O que sabemos é que hoje nosso valor é mesmo este, o papel-dinheiro. E vigora ainda o velho jargão popular que diz que “vale-se pelo que se tem e não pelo que se é”, principalmente num tempo onde esse “é” se faz tão flexível e tão móvel que “ser” não faz mais sentido. E assim, o valor impresso no papel fez do papel nosso grande valor!
Viva a capital moral capital!!
10‎ de ‎novembro‎ de ‎2005, ‏‎19:05:25
Josemar Silva

Nenhum comentário: