segunda-feira, 24 de março de 2008

Ao Desejo



“Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece,
Onde tudo nos mente e nos separa.”(
Sophia de Mello Breyner)


A paixão assola meu ser e atormenta minha alma
Alimenta, incansavelmente, um desejo intenso, violento
Dono de si, impiedoso, cruel e insistente.

Desejo não mais desejado por mim,
Mas em mim se faz a si mesmo,
Sem licença, sem compaixão de mim,
Como se eu fosse um mendigo,
Um andarilho sem origem ou destino.
Faz de mim um marinheiro sem cais, sem barco, sem nada.

Desejo que persiste em viver da contemplação, do olhar,
Da indiferença, da alienação.
Faz de mim um escravo sem forças, sem pulso.
Arrasado na força do desejo não mais meu,
Um desejo alheio aos meus mais novos desejos.

Oh desejo impiedoso,
Levanta-te de mim e prossegue teu destino só.
Dar meu lugar a mim,
Deixa-me ser.
Permita-me tocar outras areias,
Deixa-me à cegueira do tato,
Esquece-me como vigilante,
Deixa-me tocar, sentir e viver...

Esquece-me como aquele que só contempla
A arte que não me pertence.
Deixa-me, mesmo que seja para o nada,
Pois antes querer o nada
Do que viver da contemplação estéril
Que a mim – corpo e alma – atormenta e feri.

Oh desejo insano, deixa-me ir ao casulo,
Tentando ser outro,
Pois a insatisfação em ser você
Faz-me perder o domínio das velas
Que orientam meu velho e cansado barco.
Não quero mais ver tua arte, desejo ingrato.
Quero esconder-me de ti na não-contemplação do teu alimento.
Cego-me para não sofrer de ti.
Cego-me para não te ter nas migalhas de tuas concessões.

Abandono-me na cegueira, fujo da luz que revela tua arte,
Corro da beleza que me atormenta,
Que me faz prisioneiro da insatisfação repetida,
Insistente, presentificada numa maldade,
Numa beleza, numa encantadora e livre
Feitiçaria do desejo.

Oh desejo!
Deixa-me retornar a mim!
Deixa-me voltar à ignorância!
Deixa-me retornar ao tempo
Em que eu não sabia,
Em que eu não via!
Deixa-me ir ao momento
Onde tudo ainda não era.
‎8‎ de ‎agosto‎ de ‎2007, ‏‎09:34:40
Josemar Silva

2 comentários:

Renato Izidoro disse...

Josemar,
Gostei de: "Mal de te amar neste lugar de imperfeição".
Ou... é possível amar em tempos tão cruentos? ou quem sabe, esse amor romântico que vem platonicamente como imperativo categórico diante de um mundo profano e carnal... é possìvel?
Sei que muitas vezes quando meu romantismo amoroso floreia, logo murcha ou brocha quando lembro que estou nesse mundo.
Està muito bonito seu blog!
Abrs,
Renato

Menina de Saia disse...

"Oh desejo impiedoso,
Levanta-te de mim e prossegue teu destino só..."
"...Permita-me tocar outras areias..."
Já fui escrava de um desejo assim e me identifiquei com o texto, mas já me foi permitido "tocar outras areias".
O poema é,enfim, uma viagem ao nosso próprio interior, onde buscamos a essência do desejo.
Adorei seus textos, mas esse, para mim, é o melhor.
Beijos,
Cali.